Seg. Jan 26th, 2026

As ações da Tesla continuam a demonstrar uma resiliência notável, registando uma subida de 2,9% e fixando-se nos 431 dólares no fecho de quarta-feira. Esta valorização ocorre num contexto de aparente contradição: enquanto o mercado financeiro demonstra cautela, os investidores parecem inabaláveis no seu otimismo face às promessas de inteligência artificial da empresa. Andrew Percoco, analista de topo da Morgan Stanley, manteve a classificação da ação como “Manter” (Hold), desenhando um cenário para 2026 consideravelmente menos vigoroso do que o antecipado por Wall Street.

Percoco projeta que a entrega de veículos em 2026 se situe em cerca de 1,6 milhões de unidades, um valor 9% abaixo do consenso geral. Mais preocupante ainda é a previsão financeira: o banco alerta que a Tesla poderá enfrentar um fluxo de caixa livre negativo de 1,5 mil milhões de dólares nesse ano, devido a um aumento significativo nas despesas de capital (CapEx). Este dado contrasta fortemente com a expectativa do mercado, que aponta para um saldo positivo de 3,1 mil milhões. Segundo a Morgan Stanley, a margem bruta do setor automóvel poderá cair para 14,2%, face aos 15% esperados pelos restantes analistas.

O entusiasmo dos investidores e os catalisadores da IA

Apesar destes prognósticos reservados, o mercado parece estar focado noutras variáveis. Com a apresentação de resultados agendada para 28 de janeiro, a expectativa cresce em torno de atualizações cruciais sobre o ecossistema tecnológico da marca. A Morgan Stanley identifica cinco catalisadores que poderão ditar a oscilação das ações: o lançamento dos robotáxis, a evolução para uma condução autónoma não supervisionada (FSD), o desenvolvimento do chip AI5, a apresentação da terceira geração do robô humanoide Optimus e a convergência entre as várias empresas de Elon Musk, apelidada de “Muskonomia”.

Os analistas sublinham que a reação das ações dependerá da “incrementalidade” das novidades. O lançamento público de robotáxis no Texas, sem monitor de segurança, é visto como um teste crítico a curto prazo. Paralelamente, o progresso no FSD, que já acumula cerca de 7,4 mil milhões de milhas em dados, poderá permitir o início de uma experiência de condução onde o condutor pode tirar os olhos da estrada (“eyes off”) a partir de 2026.

A “Curva em S” e o realismo de Elon Musk

No entanto, o próprio Elon Musk veio temperar as expectativas quanto à velocidade destas inovações. Numa interação na rede social X, respondendo ao investidor Sawyer Merritt, Musk alertou que a produção inicial dos Cybercab e dos robôs Optimus será “agoniantemente lenta”. O CEO explicou que o processo de fabrico segue uma curva em S: o arranque é moroso, dada a quantidade de novos componentes e processos, mas acaba por acelerar exponencialmente numa fase posterior.

“Quase tudo é novo, pelo que a taxa de produção inicial será lenta, mas acabará por ser insanamente rápida”, afirmou Musk. Esta declaração surge numa altura em que a produção do Cybercab está prevista para começar em abril de 2026. Quanto aos robôs Optimus, Musk antecipa uma produção limitada em 2025 para uso interno nas fábricas da Tesla, com a produção em larga escala para clientes externos a ocorrer, esperançosamente, em 2026.

É impossível dissociar estas previsões do histórico da empresa. Em 2017, Musk pressionou os trabalhadores para o que chamou de “inferno de produção” do Model 3, falhando repetidamente as metas de 5.000 unidades semanais até meados de 2018. Hoje, a cautela é justificada, pois um atraso significativo no lançamento destes produtos inovadores poderia adiar qualquer contribuição relevante para as receitas, num momento em que o negócio central da venda de automóveis continua a ser a única fonte real de lucro.

Resultados trimestrais e o novo posicionamento de mercado

Esta narrativa focada na robótica e na autonomia tem sido fundamental para diferenciar a Tesla de fabricantes de veículos elétricos tradicionais e concorrentes agressivos como a BYD, a Volkswagen ou a BMW. Num cenário onde a procura por elétricos arrefece e a concorrência de preços se mantém feroz, a promessa do Optimus — que Musk afirma poder vir a representar 80% do valor da empresa — tem sustentado a cotação das ações, que recuperaram de mínimos anuais para perto de máximos históricos em dezembro.

Ainda assim, a realidade dos números impõe-se. As entregas do quarto trimestre totalizaram 418.200 veículos, ficando ligeiramente aquém das 422.900 unidades esperadas pelos analistas. Embora os modelos mais acessíveis, como o Model 3 e o Model Y, tenham superado as expectativas, outros segmentos falharam as metas por milhares de unidades. Dan Ives, analista da Wedbush, nota que, apesar destes percalços e da ameaça de cortes nos créditos fiscais nos EUA sob uma nova administração política, os resultados não foram desastrosos.

O crescimento do negócio de energia da Tesla e a sua incursão em nichos de mercado para compensar os contratempos na China e na Europa são vistos como passos na direção certa. Para os investidores, o desafio reside agora em equilibrar a promessa de um futuro dominado pela IA com a realidade de uma produção industrial complexa e de arranque lento.