A proposta de obrigar hospitais e seguradoras a divulgar preços ganhou força durante o governo de. A ideia parecia simples: se os pacientes soubessem quanto custa cada exame ou procedimento, poderiam comparar valores e escolher a opção mais barata, pressionando o mercado a reduzir preços.
No entanto, anos após a implementação inicial da regra, os dados disponíveis mostram que quem realmente utiliza essas informações são hospitais e planos de saúde — não os pacientes.
O que diz a política de transparência hospitalar?
Em 2019, Trump anunciou a obrigatoriedade de hospitais publicarem suas tabelas de preços online. A regra passou a valer em 2021, exigindo que instituições de saúde divulgassem valores negociados com seguradoras e preços para pacientes pagantes.
O objetivo era reduzir uma das maiores reclamações do sistema de saúde americano: contas inesperadas recebidas meses após um atendimento.
Posteriormente, o governo de : ampliou a exigência, determinando maior padronização dos dados e critérios mais rígidos de fiscalização.
A aplicação das multas ficou sob responsabilidade do : (CMS), que notificou dezenas de hospitais por descumprimento das regras entre 2022 e 2025.
Baixa adesão e dados difíceis de entender
Nos primeiros meses da política, apenas cerca de um terço dos hospitais cumpriam integralmente a exigência. Mesmo entre os que publicaram os dados, muitos o fizeram em planilhas complexas, com códigos técnicos e pouca clareza para o público geral.
Segundo a : calcular preços envolve variáveis contratuais complexas, histórico de uso e diferentes tipos de cobertura. Isso significa que dois pacientes submetidos ao mesmo procedimento podem pagar valores muito distintos.
Além disso, contratos entre hospitais e seguradoras variam amplamente, dificultando a comparação direta.
Pacientes não comparam preços
Estudos indicam que, na prática, pacientes raramente utilizam essas informações para escolher onde receber atendimento.
O economista da saúde : analisou dados de uma grande seguradora e constatou que pacientes que precisam de ressonância magnética frequentemente passam por várias clínicas mais baratas no caminho até o local indicado pelo médico — mas seguem a recomendação profissional em vez de buscar o menor preço.
Isso acontece porque:
- Os pacientes confiam na indicação médica;
- Procedimentos médicos nem sempre são comparáveis como produtos comuns;
- Em situações de urgência, não há espaço para pesquisa de preços;
- Diferenças de cobertura entre planos tornam a comparação confusa.
Quem realmente usa os dados?
Se os pacientes pouco utilizam as tabelas públicas, hospitais e seguradoras passaram a explorá-las intensamente nas negociações contratuais.
De acordo com Eric Hoag, executivo da : os dados ajudam as operadoras a verificar se estão pagando valores compatíveis com o mercado.
O mesmo ocorre do lado dos prestadores de serviço, que usam as informações para argumentar por reajustes maiores.
Para : executivo da : a transparência virou peça-chave nas negociações. Empresas de tecnologia passaram a organizar e interpretar os dados públicos, vendendo análises para hospitais e planos de saúde.
Nove em cada dez negociações hoje utilizam dados de transparência como argumento estratégico”, afirmam executivos do setor.
Por que a transparência não reduziu os preços?
Pesquisas mostram que políticas de transparência podem ter efeitos mistos. Em alguns casos, a divulgação de preços levou até mesmo a aumentos modestos, pois hospitais passaram a alinhar valores com concorrentes mais caros.
Especialistas apontam alguns fatores principais:
- Complexidade dos contratos: cada plano negocia condições diferentes.
- Falta de padronização: ausência de modelo único para apresentar dados.
- Dependência do médico: pacientes seguem indicações clínicas.
- Emergências médicas: não permitem comparação prévia.
A proposta republicana de transformar pacientes em “consumidores ativos” da saúde ainda não atingiu seu objetivo principal. Embora a divulgação de preços tenha ampliado o acesso à informação, os principais beneficiários até agora são seguradoras, hospitais e empresas de análise de dados.
Sem padronização clara, simplificação das informações e incentivos reais para comparação, a transparência hospitalar tende a continuar sendo uma ferramenta estratégica de negociação — e não um instrumento de economia direta para o paciente.