O ferro era muito raro quando o Egito estava na Idade do Bronze. A fundição de ferro em grande escala ainda não tinha sido desenvolvida, o que levanta uma questão intrigante: como é que uma lâmina de ferro foi parar ao túmulo de um dos governantes mais famosos do Egipto?
Leia mais: Em 1943, ele tentou resolver a crise da Segunda Guerra Mundial, mas um experimento fracassado criou acidentalmente um dos brinquedos mais famosos já feitos.
Um estudo científico inovador forneceu agora uma resposta convincente. Segundo os pesquisadores, a adaga de ferro de Tutancâmon foi forjada a partir de um meteorito que caiu do espaço.
O mistério da adaga de ferro de Tutancâmon explicado
Quando os arqueólogos descobriram a tumba de Tutancâmon em 1922, encontraram duas adagas embrulhadas nos invólucros funerários da múmia.
Leia mais: Os cientistas alertam que esta dieta comum pode envelhecer o coração e o cérebro mais rapidamente
Um deles tinha uma lâmina dourada, o que não é incomum em um funeral real. Porém, a segunda adaga possuía lâmina de ferro, o que imediatamente chamou a atenção dos pesquisadores.
O problema era simples: Tutancâmon governou no século XIV a.C., séculos antes de a produção de ferro se tornar comum no Egito.
O estudo descobriu que a adaga de Tutancâmon foi feita de um meteorito
O mistério foi amplamente resolvido em 2016, quando pesquisadores publicaram um estudo na revista Meteoritics & Planetary Science.
Uma equipe internacional de cientistas italianos e egípcios examinou a adaga usando um espectrômetro portátil de fluorescência de raios X no Museu Egípcio, no Cairo.
Essa técnica permitiu aos pesquisadores analisar a composição química da lâmina sem danificar o precioso artefato.
Suas descobertas foram extraordinárias.
A análise revelou que a adaga continha aproximadamente 11% de níquel e 0,6% de cobalto. Esses níveis são muito mais elevados do que aqueles normalmente encontrados no ferro produzido a partir de minérios terrestres.
Em vez disso, a assinatura química correspondia muito à dos meteoritos de ferro, fornecendo fortes evidências de que a arma era feita de metal que caiu do céu.
Por que o ferro dos meteoritos era tão valioso no antigo Egito?
A descoberta lança uma nova luz sobre como os antigos egípcios viam objetos raros.
O ferro não era um metal comum durante o reinado de Tutancâmon. Ao contrário do bronze, ainda não podia ser produzido em larga escala a partir do minério extraído.
Os meteoritos ofereciam uma das poucas fontes disponíveis de ferro.
Como tais objetos eram tão raros, o ferro meteorito era altamente valorizado entre os membros da elite da sociedade. Muitas vezes é associado a poder, prestígio e significado religioso.
Em vez de ser uma arma comum, a adaga de Tutancâmon era um item de luxo reservado à família real.
Os antigos egípcios já haviam usado metal espacial
O uso do ferro meteórico não começou com Tutancâmon.
Evidências arqueológicas mostram que os egípcios trabalharam com metais derivados de meteoritos há milhares de anos.
Um dos exemplos mais antigos conhecidos vem do cemitério pré-histórico de Gerse, no Egito, datado de cerca de 3.300 aC.
Os pesquisadores que estudaram a coleção de contas tubulares de ferro descobriram que elas também eram feitas de ferro meteórico rico em níquel.
Artesãos antigos martelavam cuidadosamente o metal em folhas finas antes de transformá-las em contas usadas em joias.
Estes objetos demonstram que os egípcios reconheceram o valor do meteorito muito antes da chegada da Idade do Ferro.
Conforme revelado pelo estudo Gerse Beads
Um estudo marcante publicado em 2013 ajudou a confirmar a origem extraterrestre das pérolas de Gerse.
Os cientistas encontraram concentrações anormalmente altas de níquel, um indicador chave do ferro do meteorito.
As descobertas sugerem que os egípcios pré-históricos coletavam e processavam deliberadamente metais de meteoritos, transformando objetos celestes em objetos decorativos.
Juntamente com a adaga de Tutancâmon, as pérolas fornecem fortes evidências de que o ferro do espaço exterior era familiar aos antigos egípcios muito antes de dominarem a fundição do ferro.
A adaga de Tutancâmon muda o que sabemos sobre a Idade do Ferro
A adaga oferece aos historiadores um vislumbre fascinante de um período de transição no desenvolvimento tecnológico humano.
A história é frequentemente apresentada como uma simples transição da Idade do Bronze para a Idade do Ferro. Na verdade, a transição foi muito gradual.
Antes que as sociedades aprendessem a fundir o ferro a partir dos minérios da Terra, pequenas quantidades de ferro de meteorito eram coletadas e usadas para fins especiais.
A adaga de Tutancâmon representa este importante estágio intermediário.
Isto não prova que o Egito tenha desenvolvido uma produção extensiva de ferro durante a Idade do Bronze. Em vez disso, mostra que artesãos habilidosos eram capazes de trabalhar com ferro meteórico raro quando este estava disponível.
Como os cientistas resolveram o mistério da antiga adaga egípcia
As tecnologias modernas desempenharam um papel crucial na resolução do quebra-cabeça.
O dispositivo portátil de fluorescência de raios X permitiu aos pesquisadores identificar a impressão digital química do anão sem remover ou danificar as amostras.
Ao comparar a composição do metal com meteoritos conhecidos, os cientistas podem rastrear com segurança a sua origem no espaço.
O estudo demonstra como as técnicas científicas modernas estão revelando novas informações sobre alguns dos artefatos mais famosos da história.
Por que a adaga espacial de Tutancâmon ainda fascina os pesquisadores
Mais de 3.300 anos após a sua criação, a adaga de Tutancâmon continua a capturar a imaginação de historiadores, cientistas e do público.
A arma combina história real, habilidade avançada e uma extraordinária história de origem cósmica.
A sua existência lembra-nos que o primeiro encontro da humanidade com o ferro pode não ter vindo de minas ou fornalhas, mas sim de meteoritos que caíram do céu.
Para os antigos egípcios, este raro “metal do céu” era considerado algo especial e sagrado. Hoje, oferece uma janela notável sobre as origens da metalurgia e a engenhosidade de uma das maiores civilizações da história.